Pesquisa no Cotidiano Escolar

Marli E. D. A. André — FEUSP

Entre os tipos de pesquisas que vêm sendo utilizadas na área de educação, destacam-se os estudos que focalizam as situações especificas do cotidiano escolar. O presente trabalho pretende identificar algumas das características desses estudos, assim como destacar questões que emergem quando se desenvolve este tipo de investigação.

1. A pesquisa do tipo etnográfico no Cotidiano Escolar

A pesquisa aqui localizada se aproxima muito do “trabalho de campo” tal como é proposto por Cicourel (1980) e Iunker (1971), podendo também ser identificada como uma pesquisa do tipo etnográfico já que utiliza técnicas tradicionalmente adotadas pela etnografia, como a observação participante e a entrevista não-estruturada. Entretanto, enquanto antropólogos e sociólogos se preocupam com a descrição da “cultura” de grupos e sociedades primitivas ou complexas, o trabalho aqui proposto se Volta para as experiências e vivências dos indivíduos e grupos que participam e constroem o cotidiano escolar.

Essa abordagem se diferencia da pesquisa participante tal como é defendida por Carlos Brandão e Fals Borda (1981) que propõem um intenso envolvimento do grupo pesquisado nas diversas fases da pesquisa, inclusive na definição do objeto de estudo, uma restituição sistemática dos conhecimentos da pesquisa aos pesquisados e um processo coletivo da avaliação dos resultados para transforma-los em ações concretas. Para esses autores a pesquisa deve dirigir-se aos grupos populares de modo que estes possam “entender melhor seus problemas e agir em defesa de seus interesses” (Fals Borda, 1981: 50).

O tipo de trabalho aqui focalizado também não se confunde com a pesquisa-ação tomada em sua acepção mais tradicional, ou seja, como um processo de controle sistemático da própria ação do pesquisador, ou como um estudo que envolve alguma forma de intervenção.

A pesquisa do tipo etnográfico pode até incluir algum tipo de ação ou intervenção por parte do pesquisador ou do grupo pesquisado, mas isso irá ocorrer mais em função do esquema flexível que o processo etnográfico assume do que de uma proposta intencional de intervenção.

O que caracteriza mais fundamentalmente a pesquisa do tipo etnográfico é, primeiramente, um contato direto e prolongado do pesquisador com a situação e as pessoas ou grupos selecionados. Evidentemente deve ficar claro, desde o início da pesquisa, o grau de envolvimento ou de participação do pesquisador na situação pesquisada. A intensidade do envolvimento pode variar ao longo do processo de coleta dependendo das exigências e especificidade do próprio trabalho de campo. O que parece fundamental é que o pesquisador tenha muito claro em cada momento por que certo grau de participação e não outro está sendo assumido e saiba avaliar prós e contras desta ou daquela opção.

Um outro requisito da pesquisa do tipo etnográfica é a obtenção de uma grande quantidade de dados descritivos. Utilizando principalmente a observação, o pesquisador vai acumulando descrições de locais, pessoas, ações, interações, fatos, formas de linguagem e outras expressões, que lhe permitem ir estruturando o quadro configurativo da realidade estudada, em função do qual ele faz suas análises e interpretações.

Outro aspecto peculiar aos estudos etnográficos é a existência de um esquema aberto e artesanal de trabalho que permite um transitar constante entre observação e análise, entre teoria e empiria. O processo etnográfico pode partir de questões bem claras e definidas ou de um esquema teórico incipiente que vai se construindo e estruturando ao longo da pesquisa. A flexibilidade do esquema de trabalho deve ser, no entanto, aproveitada para uma ampliação e enriquecimento da teorização e não corno pretexto para justificar a falta de um caminho teórico definido.

A utilização de diferentes técnicas de coleta e de fontes variadas de dados também caracteriza os estudos etnográficos, ainda que o método básico seja a observação participante. O pesquisador em geral conjuga dados de observação e de entrevista com resultados de testes ou com material obtido através de levantamentos, registros documentais, fotografias e produções do próprio grupo pesquisado, o que lhe permite uma “descrição densa” da realidade estudada.

Uma vez explicitado o que está sendo entendido por abordagem de tipo etnográfico, faz-se necessário justificar por que o enfoque no cotidiano escolar.

O estudo do cotidiano escolar se coloca como fundamental para se compreender como a escola desempenha o seu papel socializador, seja na transmissão dos conteúdos acadêmicos, seja na veiculação das crenças e valores que aparecem nas ações, interações, nas rotinas e nas relações sociais que caracterizam o cotidiano da experiência escolar.

Esse processo de socialização, no entanto, não é tão determinístico ou mecanicista como se poderia imaginar, Da mesma maneira como a realidade social se configura contraditória, expressando no seu cotidiano uma correlação de forças entre classes sociais, a escola, como constitutiva dessa práxis, vê refletidas no seu dia-a-dia todas essas e outras contradições sociais.

E captando o movimento que configura esta dinâmica de trocas, de relações entre os sujeitos — que por sua vez reflete os valores, símbolos e significados oriundos das diferentes instâncias socializadoras —, que se pode Visualizar melhor como a escola participa do processo de socialização dos sujeitos que são, ao mesmo tempo, determinados e determinantes. Todo este processo se materializa no cotidiano, quando o indivíduo se coloca na dinâmica de criação e recriação do mundo.

O estudo da atividade humana na sua manifestação mais imediata — o existir e o fazer cotidiano — parece fundamental para compreender, não de forma dedutiva, mas de forma crítica e reflexiva, o momento maior da reprodução e da transformação da realidade social. A importância do estudo do cotidiano escolar se coloca aí: no dia-a-dia da escola é o momento de concretização de uma série de pressupostos subjacentes a prática pedagógica, ao mesmo tempo que é o momento e o lugar da experiência de socialização que envolve professores e alunos, diretor e professores, diretor e alunos e assim por diante.

Conhecer a realidade concreta desses encontros desvenda, de alguma forma, a função de socialização não-manifesta da escola, ao mesmo tempo em que indica as alternativas para que esta função seja concretizada da maneira o mais dialética possível.

Um estudo do cotidiano escolar envolve, assim, pelo menos três dimensões principais que se inter-relacionam. A primeira refere-se ao clima institucional que age como mediação entre a práxis social e o que acontece no interior da escola.

A práxis escolar sofre as determinações da práxis social mais ampla através das pressões e das forças advindas da política educacional, das diretrizes curriculares Vindas de cima para baixo, das exigências dos pais, as quais interferem na dinâmica escolar e se confrontam com todo o movimento social do interior da instituição. A escola resulta, portanto, desse embate de diversas forças sociais.

A segunda dimensão diz respeito ao processo de interação de sala de aula que envolve mais diretamente professores e alunos, mas que incorpora a dinâmica escolar em toda a sua totalidade e dimensão social.

A terceira dimensão abrange a história de cada sujeito manifesta no cotidiano escolar, pelas suas formas concretas de representação social, através das quais ele age, se posiciona, se aliena ao longo do processo educacional. A dimensão subjetiva do indivíduo numa dada posição socializadora é fundamental para se verificar como se concretizam, no dia-a-dia escolar, os valores, símbolos e significados transmitidos pela escola.

Essas três dimensões, vistas como unidade de múltiplas interrelações, possibilitam a compreensão das relações sociais expressas no cotidiano escolar, num enfoque dialético homem-sociedade nos diversos momentos dessa relação. A identificação e explicação desse movimento permite captar a direção do que acontece dentro da escola sem desvinculá-ia da práxis social mais ampla.

2. Algumas questões da pesquisa do tipo etnográfica no Cotidiano Escolar

O lugar da teoria na pesquisa

Como em qualquer tipo de investigação, o primeiro passo na pesquisa do tipo etnográfico é a tentativa de delimitação do problema em estudo, para o que o pesquisador recorre a um referencial teórico mais ou menos definido. A teoria é, pois, uma preocupação inicial do pesquisador para formular a pergunta ou questão que orienta a pesquisa.

Este referencial teórico pode consistir na adoção de uma determinada perspectiva, como por exemplo a abordagem humanista. Ou pode envolver as concepções de um determinado autor, como por exemplo Paulo Freire. Ou pode ainda envolver a explicitação de alguns conceitos básicos que, embora não constituam um corpo teórico definido, configuram uma determinada direção, como por exemplo a discussão dos conceitos de ideologia, poder, dominação e resistência, dentro de uma perspectiva dialética.

É importante assinalar que, sem um referencial básico de apoio, a pesquisa pode cair num empirismo vazio e conseqüentemente não contribuir para um avanço em relação ao já conhecido. Por outro lado, a escolha de uma dada perspectiva não deve significar uma orientação pronta e única, mas um dos possíveis caminhos de aproximação do real, e esse caminho pode e deve ser questionado e revisto durante todo o desenrolar da pesquisa. A teoria vai, assim, sendo construída e reconstruída ao longo da pesquisa.

Para que isto possa ocorrer, no entanto, é preciso uma atitude flexível para fazer as mudanças, ajustes e reformulações necessários, seja nas questões iniciais, seja na escolha dos sujeitos participantes, seja na definição das estratégias de coleta e análise ou mesmo no “esquema” básico do trabalho. Mas, além disso tudo, é preciso um interesse especial em ampliar o conhecimento já disponível, o que vai exigir uma constante atitude de busca e de tentativa de descoberta de novos conhecimentos.

A explicitação do papel da teoria na pesquisa ajuda-nos a compreender mais claramente as questões comumente postas pelos pesquisadores sobre a relação teoria-método. Se admitimos que a teoria vai sendo construída e reconstruída no próprio processo da pesquisa, temos de aceitar que as opções metodológicas também vão sendo explicitadas e redefinidas à medida que a investigação se desenvolve. O que não podemos deixar de assinalar é a estreita articulação que deve existir entre teoria e método; sem ela 0 próprio processo de pesquisa perde seu sentido.

A relação entre o micro e o macrossocial

A opção pela escola como foco de estudo não implica aborda-la apenas em função de suas relações internas. Trata-se, ao contrário, de considera-la como parte de uma totalidade social que de alguma maneira a determina e com a qual ela mantém determinadas formas de relacionamento.

O enfoque no cotidiano escolar significa, pois, estudar a escola em sua singularidade, sem desvinculá-la das suas determinações sociais mais amplas. O propósito é compreender o cotidiano como momento singular do movimento social, e isso vaí exigir, do ponto de vista teórico, o manejo de grandes categorias sociais como classe, cultura, hegemonia etc. Do ponto de vista metodológico isto implica complementar as observações de campo com dados advindos de outras ordens sociais, como por exemplo a política educacional do país, as diversas organizações sociais que exercem alguma influência na escola etc.

O que é necessário, em síntese, é tentar transcender o nível micro, acompanhando os diversos “fios” que o vinculam às estruturas macrossociais, com o cuidado de não cair no outro extremo, ou seja, querer analisar uma realidade particular como uma “totalidade social”, isto é, como uma situação que se esgote em si mesma.

A pesquisa precisa buscar estabelecer esta mediação entre o momento singular expresso no cotidiano escolar e o movimento social, o que, parece, só pode ser conseguido através de uma postura teórica muito consistente, de uma visão de escola muito definida e de um esforço analítico bastante árduo.

O controle da subjetividade e a busca do rigor científico

Na própria definição de trabalho etnográfica — em que “o observador está em relação face a face com os observados e, ao participar da vida deles no seu cenário natural, colhe dados” (in Cicourel, 1980) —, aparece implicítamente a questão da subjetividade na pesquisa de campo.

A pergunta relevante neste caso parece ser a seguinte: Como conseguir um distanciamento do objeto estudado que permita por um lado fugir ao senso comum, já que se estuda em geral um contexto “familiar”, e por outro lado possibilite um controle dos próprios preconceitos e limitações pessoais?

A resposta evidentemente não é simples nem direta. Os antropólogos e sociólogos sugerem o “estranhamento“, uma atitude de policiamento contínuo do pesquisador para transformar o familiar em estranho. E um esforço ao mesmo tempo teórico e metodológico: por um lado deve-se jogar com as categorias teóricas para poder ver além do aparente e por outro treinar-se para “observar tudo”, para “enxergar” cada vez mais, tentando vencer o obstáculo do processo naturalmente seletivo da observação.

Mais uma vez a teoria parece exercer um papel extremamente importante no sentido de caminhar paralelamente à observação, possibilitando uma ampliação do campo do observador, indicando “pistas” para um estudo mais aprofundado ou sugerindo focos para uma atenção mais sistemática.

Outra questão que se poderia trazer ainda com relação ao controle da subjetividade é a prática do trabalho individual de pesquisa. Admitindo-se que a realidade pode ser vista sob diferentes prismas, que há padrões diversificados e conflitantes de interpretação do real, o trabalho de pesquisa, principalmente o que se volta aos processos sociais, deveria no mínimo tentar refletir esta diversidade de perspectivas.

Uma das formas pelas quais isto poderia ocorrer seria através de um processo coletivo de trabalho, se possível interdisciplinar, O envolvimento de um grupo de pesquisadores no estudo de temas geralmente passíveis de enfoques divergentes pode ser extremamente benéfico no caminhar teórico-metodológico que se empreende atualmente na área educacional.

A problemática da análise de dados

Embora no processo etnográfica a atividade de análise se faça paralelamente à de observação à medida que o pesquisador vai selecionando os aspectos que merecem ser melhor explorados, quando ele decide que elementos devem ser privilegiados e quais podem ser abandonados, a fase mais concentrada de análise ocorre no final do trabalho de campo.

E quando surgem várias indagações como: Por onde devo começar a análise? Como devo elaborar o meu sistema de categorias? Que caminhos me possibilitarão ir além dos dados para chegar a estruturação de conceitos mais abrangentes?

Mais uma vez não existem respostas simples para estas questões. O processo de análise dos dados qualitativos é extremamente complexo, envolvendo procedimentos e decisões que não se limitam a um conjunto de regras a serem seguidas. O que existem são algumas indicações e sugestões muito calcadas na própria experiência do pesquisador e que servem como possíveis caminhos na determinação dos procedimentos de análise.

Na fase final do trabalho de campo, o pesquisador se defronta com uma série de tarefas, tais como a codificação dos registros e de outros materiais coletados, a criação ou especificação de categorias e a estruturação dos conceitos e concepções mais abrangentes.

O processo de codificação pode variar muito. Alguns preferirão letras, outros números e outros ainda farão as anotações no próprio registro. Estes sinais e seus respectivos conteúdos-temas, tópicos, expressões serão reunidos para formar conjuntos de categorias que indicarão as tendências mais marcantes ou mais significativas na problemática estudada.

A formação de categorias também envolve procedimentos variados. Algumas dessas categorias analíticas podem derivar diretamente da categorização teórica que constitui o referencial de apoio. Outras surgirão a partir do próprio conteúdo das anotações feitas, especificando ou expandindo as categorias iniciais.

O essencial é que, para a elaboração destas categorias analíticas, se faz necessária uma leitura exaustiva das anotações até chegar ao que Michelat (1980) chamou de “impregnação” de seu conteúdo. Nestas leituras sucessivas vão aparecendo as dimensões mais evidentes, os elementos mais significativos, as expressões e as tendências mais relevantes.

É importante ainda que o pesquisador não se restrinja ao conteúdo manifesto das anotações, mas procure aprofundar-se, desvelando mensagens implícitas, dimensões contraditórias e pontos sistematicamente emitidos.

Num momento imediatamente subseqüente e sempre em confronto com os pressupostos teóricos colocados, este conjunto primeiro de categorias deverá ser reexaminado e modificado em função da associação ou dissociação de idéias e conceitos identificados. Este movimento ininterrupto de confronto entre teoria e empiria deve resultar numa aproximação maior da realidade que a pesquisa pretende representar.

Referências bibliográficas

BRANDÃO, C.R. (org.). Pesquisa participante. São Paulo, Brasiliense, 1981.

CICOUREL, A. “Teoria e métodos em pesquisa de campo", in Guimarães, A.Z. (org.). Desvendando máscaras sociais Francisco Alves, 1980.

FALS BORDA, O; "Aspectos teóricos da pesquisa participante“ in C.R. Brandão (org.) Pesquisa participante. São Paulo, Brasiliense, 1981.

JUNKER, B4 A importância do trabalho de campo. Lidador, 1971.

MICHELAT, G. “Sobre a utilização da entrevista não-diretiva em Sociologia" in M. Thiollent. Crítica metodológica, investigação social e enquete operária. São Paulo. Polis, 1980.
Topic revision: r1 - 30 Mar 2016, AurelioAHeckert
 

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